Perdido [1]
Findas as férias foi necessário regressar ao trabalho. As viagens cançam mas é verdade que permitem encontrar cantos escondidos do nosso país que de outra maneira nunca conheceria. Nas estradas portuguesas encontramos tanto que nem sabemos que contar.
Pastores que largam rebanhos no esfalto, buracos que parecem crateras, vales e montes belíssimos, natureza por vezes quase selvagem, estradas estreitas que serpenteia, etc.
E nesses caminhos me perdi. Coisa que não gosto. Parece que se perde todo o prazer, que se viu aquelas paisagens 100 vezes, que já não aguentamos mais. Começa a escurecer e eu ainda não encontrei Lugar de Cima ou de Baixo, já nem sei. Um quarto numa penão à minha espera, um banho de imersão com espuma (que não dispenso nestas minhas viagens), um jantar regado… e nada, parece que vou pernoitar no carro. Não que já não tenha acontecido, mas hoje apetecia ficar alí. descansar a sério.
Ando mais uma hora. Fica bem escuro nestas estradas. Não se vê povoações, não há iluminação e hoje, hoje por sinal, não há lua. Foi descansar deixando-me aqui bem perdido.
Encosto o carro junto a um pequeno caminho de terra batida para aliviar as tensões. Fumo um cigarro, bebo água e alivio demoradamente a bexiga.
Ouço um “Boa noite”, assusto-me e surge um homem, nos seus 30 anos, à minha frente nada incomodado por eu estar de verga na mão a urinar. Continua a dirigir-se a mim, a falar: “Está uma bela noite para mijar não?” Saca da dele e ali junto a mim começa também. Fico tão incomodado com a situação que passa logo a vontade e enfio a gaita nascalças desajeitadamente. Começa a rir. Pede desculpa, queria meter-me à vontade porque tinha reparado que me tinha assustado. Disse-me que viu as luzes do carro e veio ver o que era. Morava ali em baixo, no fundo do caminho de terra. Olhando bem, reparei então numas pequenas luzes. Fiquei pensativo porque demorei-me a fumar, enquanto observava por onde andava e não as tinha visto. Continuou dizendo que tinha chegado há pouco a casa. As ovelhas tinham demorado mais tempo do que o normal.
Perguntou-me se queria ajuda. Expliquei-lhe a minha situação. Disse-me que por agora seria impossível chegar ao destino. De noite era dificil perceber onde devia virar para chegar perguntou-me se ia ficar no carro a dormir. Respondi-lhe que sim, claro. Não teria outra alternativa. Propos-me então estacionar no terreno dele. Ficava mais abrigado, que nunca se sabia quem passava na estrada. Receoso, acabei por aceitar.
Se bem que ele não esperou a resposta. Já tinha aberto a porta do pendura para entrar e mostrar o caminho. Situação bastante constrangedora, mas já tinha outra hipótese.
A casa dele era construída em madeira. Parecia um daqueles chalés pre-fabricados. A frente da casa era de uma beleza inimaginável. Uns degraus paraterraço coberto de buganvilias multicolores. Umas pequenas luzes escondidas pelo meio das flores, uma mesa e 4 cadeiras de madeira, umas velas de citronela acesas sobre a mesa e um banco/baloiço no canto esquerdo. A porta da casa ficava ao centro deste cenário. Meio entreaberta, deixava fugir um delicioso perfume a sopa.
Saímos do carro e sem falar, dirigiu-se para rás, abriu o porta-bagagens, pegou na minha mala e disse-me que já que ali estava, podia tomar um banho e jantar com ele. Assim teria companhia para jantar. Andou em direcção à casa, continuando a falar: “Eu levo isto para dentro. Senta aí fora enquanto acabo a sopa. Já te trago uma cerveja. Tens um cinzeiro na gaveta pequenina.” E mais umas coisas que já não ouvi porque já tinha entrado.
Um cenário inimaginável. Estava ali com um estranho, que surgiu do nada, que me cativou pela beleza, certo, mas que enerrava tantos mistérios que não sabia como reagir.
Voltou a sair com duas cervejas. Ficou de pé, no cimo dos degraus, de mão esticada para me estender a cerveja e disse-me rindo: “Vais ficar especado aí? Ou vens sentar-te e descansar?”

http://img.iha.pt/Alojamentos-turisticos-encanto/Franca/Rodano-alpes/Alta-saboia/Chamonix-mont-blanc/LE-CHALET-DES-GLACIERS_188970000106113.jpeg


Deixar uma Resposta